sexta-feira, 16 de junho de 2017

Capítulo 1 - Jarham

Era tarde quando o grupo de cinco viajantes chegou à Jarham junto de uma caravana. A cidade pequena e rodeada pela floresta verde e vívida acolhia aquelas pessoas cansadas da estrada de sol quente e escaldante. Junto à caravana, havia mais cinco homens. Dentre os cinco, três deles chamavam um tanto a atenção daqueles que passavam por eles. Khazardianos, isso o que eram. As peles bancas como mármore, os cabelos negros e os olhos peculiares denunciavam suas ancestralidades causando tremor no povo da cidade.
Os homens eram conhecidos, alguns até mesmo já amigos. A noite já reinava e necessitavam de um belo descanso depois da longa caminhada, dentre eles, três foram arrumar um lugar para o grupo se alojar. A estalagem era o único local aceso e movimentado àquela hora da noite, quanto aos outros dois, necessitavam colher suas ervas, afinal, o estoque do alquimista e do inquisitor já estava no fim.

Darik, o alquimista Rekinai e Kriv, o inquisitor Khazardiano, acenaram para seus companheiros. Os três sabiam que iam para a floresta e adentraram na estalagem retribuindo o aceno para os colegas.

A lua iluminava parcialmente a floresta onde Darik e Kriv vagueavam, não se atreveram a adentrar muito na vegetação. O alquimista dono dos cabelos castanhos escuros e pele bronzeada procurava pelas ervas certas, seu olhos azuis vasculhavam a área enquanto arrumava seu bigode.

- O que acha Kriv? – o homem olhou em direção do amigo – algo interessante?

O inquisitor Khazardiano mirou seu amigo com seus olhos vermelhos escuros, sua pele pálida ainda podia ser vista mesmo na penumbra e seus cabelos negros e curtos se misturavam com a escuridão.

- Nada – ele passava as mãos nas vestes negras, um ato involuntário promovido pela brisa gélida noturna – precisamos de algo para as poções.

Alguns minutos depois Darik acenou para o colega e recolheram algumas ervas curativas, ao lado Kriv achou outras duas ervas, dentre elas uma com propriedades alucinógenas e ilegais em Thalas.

- Alguém aqui anda fora da linha – disse Darik rindo baixo, levantou-se com o amigo e rumaram para a estalagem. Conseguiram o que queriam.

A estalagem já estava vazia quando os três companheiros entraram. As luzes baixas do recinto davam um ar mais aconchegante, a briga noturna dançava por entre as mesas deixando o ar leve e fresco. Do outro lado do balcão o taberneiro levantou os olhos assim que viu os dois homens anormalmente brancos entrarem juntamente com um rapaz de chapéu requintado. Em questão de segundos, um dos pálidos homens e o de chapéu se encaminharam para a mesa dos fundos juntando-se a jogatina com outros dois homens que já estavam sentados jogando e degustando um queijo.

O outro homem pálido se aproximou do balcão e debruçou sobre ele, logo a visão do taberneiro voltou-se para ele. Para ele era mais um daqueles cretinos Khazardianos, aqueles que governaram as terras de Thalas por anos e que cometiam atrocidades com seus demônios. O homem puxou a besta e colocou no balcão fazendo questão que o homem pálido olhasse sua ação.

- Boa noite – disse o homem de pele de mármore enquanto olhava a besta – não viemos causar problemas, o senhor poderia nos trazer algumas bebidas e uma comida?

- Boa noite – disse rudemente o taberneiro enquanto engatilhava sua besta – sente-se que eu levo, mas que fique bem claro. Se você e sua laia arrumarem briga e usarem feitiçaria... – o taberneiro forte olhou para a besta e voltou-se para os olhos cor de violeta.

- Não usamos feitiçaria senhor, só queremos comer e um lugar para dormir- respondeu o Khazardiano calmamente enquanto acariciava seu corvo.

- Só tenho apenas mais um quarto – ele indicou a portinhola debaixo da escada e deu a chave ao homem.

- Muito obrigado.

Na mesma hora o homem, de pele clara e aparência mais velha que seus colegas, depositou o dinheiro no balcão e foi se sentar em uma das mesas um pouco afastada do seus dois amigos que conversavam com os desconhecidos. Seu suspiro foi baixo quando bagunçou levemente seus cabelos negros e leves mechas brancas de nascença, era sempre assim, o preconceito ainda reinava por todos os lugares, mas ele entendia o motivo. Alexander, o homem de pele pálida e olhos violetas olhava o dono da taberna entregar as coisas na mesa e se colocou a comer.

Do outro lado da taberna seus amigos riam com os homens desconhecidos, Erick, o mais jovem dentre eles, estava ganhando de lavada. Seu amigo Khazardiano mais forte ria dos homens que se divertiam mesmo perdendo.

- Vocês dois parecem saber de coisas da vida – disse um dos homens desenrolando um papel e colocando na mesa – me falaram que há grandes tesouros guardados aí nesse lugar – o homem cutucava o papel apontando para uma caveira que marcava o local.

- Quanto desenho estranho! – disse o Khazardiano olhando o mapa enquanto os dois homens se olhavam.

- Me deixa ver isso aqui! – o rapaz mais novo coçava seu cavanhaque enquanto analisava o mapa, acabou por reconhecer que aquelas escritas se tratavam de Khazardiano Antigo. – Ô Alex! Chega aqui! – o rapaz gritava pelo amigo que não estava com uma cara nada satisfeita por ter sido convocado.

- O que foi Erick? – Alexander sentou-se ao lado do amigo e olhou para o mapa a sua frente. Com toda certeza ele leu corretamente aquele pedaço de papel.
- E aí? O que diz? – disse Himlerith animado, o Khazardiano que estava do outro lado da mesa.

- Você consegue ler isso aí? – disse um dos homens que estava jogando.
- Consigo - disse secamente Alexander enquanto olhava pra Himlerith tentando enviar uma mensagem com os olhos, mas em vão.

Na mesma hora a porta da estalagem se abriu e Darik e Kriv adentraram. O taberneiro gelou novamente, três Khazardianos sob seu teto, os Deuses estavam brincando com ele. Assim que viu a algazarra no fundo de sua estalagem ele foi para próximo ouvir, mas sem esquecer sua besta.

- E aí? Desembucha! – Himlerith bebia de seu caneco fitando os companheiros com seus olhos vermelhos flamejantes, a luz do local deixava sua pele ainda mais branca e seus cabelos ainda mais negros que carvão.

- O que está acontecendo? – perguntou Darik curioso enquanto olhava o mapa na mesa.

- Tá bom, tá bom... – respondeu Alexander suspirando – estão vendo as estrelas? Quando elas brilharem de cor diferente no céu a porta da tumba será aberta, lá foi enterrado um grande feiticeiro detentor de grande poder – ele voltou seus olhos para todos e viu que estavam prestando muita atenção, percebeu também que Erick e Kriv haviam entendido que estava inventando, então continuou com sua mentira – há um guardião lá, a caveira diabólica ali da imagem de cima. Para derrotá-la, temos que ter o medalhão que está aqui na parte inferior, entretanto, não é tão fácil pegar. É guardado por três criaturas de um olho só. É isso.

- Vocês querem ir com a gente? Não conseguimos trazer tudo só nós dois – os olhos dos homens brilhavam pela ambição.

- Com toda certeza iremos! – respondeu Himlerith batendo o caneco na mesa.

- Quando é que as estrelas mudam de cor? – perguntou Erick olhando para Alexander.

- Depois de amanhã – respondeu o taberneiro inquieto.

- Nos encontramos no entardecer para irmos para lá, é relativamente próximo – respondeu um dos homens.

- Como se chamam? – Erick colocava seu chapéu novamente olhando os dois.

- Podem nos chamar de John e Greg.

- Está marcado.

Após as despedidas e o fechamento da taberna o grupo se recolheu para seu quarto. Era um pequeno, mas confortável. O taberneiro fora fazer a ronda noturna com seu filho e todos dormiram, entretanto, no meio da noite passos ecoaram na escada acordando os cinco homens. Erick arrumou seu casaco e pôs seu chapéu dando o entender que iria sair, até ser pego pelo braço por Alexander.

- Espere, deixe comigo – o homem sentou no canto do quarto e colocou o capuz na cabeça, não queria que ninguém visse seus olhos, sua filha sempre falava que era assustador. No mesmo momento seus olhos ficaram completamente negros e sua respiração acalmou.

- O que ele está fazendo? – perguntou Kriv olhando estranho enquanto se ajeitava na cama.

- Está olhando pelo corvo – pacientemente Erick respondeu controlando seus instintos de assassino, conhecia o Khazardiano há mais tempo sabia o que ele faria.

Lá fora, Hades, o corvo de penas negras lustrosas, sobrevoava o vilarejo e avistava o líder da caravana, Poul, andando até um local afastado da cidade. Lá, um senhor bem vestido o esperava. Seu porte indicava que era um senhor de dinheiro. O corvo pousou e escutou a conversa daqueles dois.

- Está no armazém, meu senhor, mas seja rápido – disse Poul um tanto nervoso.

- Não há o que se preocupar – respondeu o burgo-mestre da cidade.

- Mas senhor Borges, o nosso problema.

- Não se preocupe – Borges apertou a mão do homem lhe dando um saco de dinheiro miúdo – vá para a estalagem e descanse.

Ali os homens se separaram e o corvo acompanhou o burgo-mestre, o mesmo enviou dois soldados até o armazém e assim o pássaro fez. Pousado em uma das brechas, Alexander viu 7 crianças sendo tiradas do vagão que acompanhou toda a caravana. Estavam machucadas, vendadas, amordaçadas e presas, uma delas, de cabelos brancos lembrou sua filha. O desespero passou pelo corpo de Alexander, mas se acalmou ao ver que não era sua Samira que estava ali. Os olhos negros acompanharam a caminhada silenciosa até a floresta e viu as pequeninas crianças adentrarem na cabana indo direto para o alçapão.

- Ei, ei! O que você está vendo? – Alexander voltou a si vendo o par de olhos azuis na sua frente. Darik balançava o ombro do amigo.

- Tenho que concentrar pra ver Darik – o mais velho fez uma careta brincalhona e olhou para todos que aguardavam com expectativas – O dono da caravana vendeu 7 crianças pro Borges, o burgo-mestre da cidade. Levaram elas para uma cabana que fica próximo daqui. O chefe da caravana está voltando pra cá – o homem bagunçou seus cabelos negros novamente num ato de nervoso.

- Amigo, deixe comigo agora – Erick sorria malandramente escutando os passos na escada enquanto tirava seu chapéu deixando com Himlerith – me esperem aqui.

- Depois preciso falar com vocês – Alexander suspirava cansado e começava a desenhar num pedaço de papel.

- Vá, te dou cobertura – disse Darik olhando seu amigo assassino.

- Hades vai ficar de vigia do lado de fora – respondeu Alexander sem tirar os olhos do papel.

- Tome – Kriv deu ao alquimista incenso do sono – pode servir para algo.

Em um segundo, Erick abriu a porta e saiu. A noite estava calma e silenciosa, tudo o que o Thalassiano de cabelos castanhos ouviu foi a porta sendo batida levemente. Seu sorriso rasgou sua boca e com poucas palavras, aquele rapaz de pele clara, cavanhaque e madeixas castanhas se transformou em um Keshan, sua pele agora era escura e tatuagens adornavam seu rosto e peito. Como um gato astuto, Erick subiu as escadas e destrancou a porta do quarto. Em questão de poucos segundos a boca de Poul estava tampada enquanto o homem se debatia em desespero.

Um barulho fraco foi ouvido, algo tinha caído, a adaga de Poul caíra da cama. Foi nesse exato momento que Darik se moveu e viu uma pequena senhora saindo de seu quarto, o homem jogou o sonífero e arrastou a senhorinha para dentro.

Dentro do quarto, Poul se acalmava aos poucos tentando conversar com o negro. Seus olhos estavam esbugalhados. Um Keshan! Ele não queria virar sacrifício para a tribo Keshan e nem ser comido vivo.

- Eu sei das crianças – disse Erick afrouxando a mão na boca e colocando a adaga no pescoço do homem – ou você fala, ou você morre.

- Eu fui obrigado! Eu fui obrigado! – o homem tremia de medo, a adrenalina circulava por suas veias tanto que nem pôde reparar no corvo que vigiava na janela.

- Quem o obrigou? – a voz grossa ecoou pelo quarto.

- Borges! Ele é o burgo-mestre daqui!

- E o que eles querem com as crianças?

- Não sei senhor! – Poul começava a chorar.

- Você está dizendo a verdade? – ele apertou a adaga mais contra o pescoço quando a porta abriu e Erick rapidamente viu Darik ali para caso precisasse de ajuda.

- Estou! Eu juro! Por favor, não me mate! – Poul falava baixo e esganiçado.

- Escute muito bem, você nunca mais irá fazer isso. Nunca mais sequestrará crianças. Se eu souber, eu volto e te mato. Mato e depois como sua carne – Erick segurava o riso, ele era um assassino, fora criado para isso. Sua arte era algo fascinante para ele.

- Sim senhor! Sim senhor! Eu juro!

Rapidamente, Erick pegou a adaga do homem que havia caído no chão e fez um aceno silencioso para Darik sair sem ser visto. Quando Erick saiu, Darik o esperava na porta e desceu com ele segurando o riso. O rapaz ainda estava na forma de Keshan e saiu da estalagem com o corvo sobrevoando sua cabeça.

Os guardas paralisaram ao ver tal ser de tamanho descomunal com o corvo. O agouro de morte. E logo aquele ser sumiu do campo de visão deles. Em pouco tempo Erick retornou a estalagem e contara aos seus amigos o que havia feito.
Eles riam baixo para não acordarem ninguém. E logo a discussão sobre o que fariam começou. O corvo adentrou no recinto e se aconchegou no colo do dono e o mesmo deu aos seus companheiros o mapa que haviam visto mais cedo.

- Eu lembrei de como era e desenhei pra gente – os olhos violeta olharam para eles – na verdade, tinha outra coisa escrita lá. É a tumba de Zekar, ele se enterrou com suas três mulheres e esperam o dia de acordarem para reivindicar o mundo para eles.



- E as imagens? – perguntou Kriv, mas ele logo viu Alexander encolher os ombros no sentido de que não sabia.

- Nos preocupamos com isso depois – Erick acariciava seu cavanhaque – temos que resgatar as crianças.

- Você pode fazer alguma ilusão Alex? – perguntou Darik.

- Posso.

- Podemos então ir separados, eu e Erick vamos com o Hades por um caminho e vocês três por outro, o que acham? – sugeriu Kriv pegando o corvo e colocando no ombro.

- Tudo bem, vamos antes que amanheça  - Himlerith levantou animado com a situação e embainhou sua amada espada.

E assim os aventureiros foram, separados. Chegando na casa de caça, o silêncio tomava conta do local. Não havia vento e nem animais, a calmaria era amedrontadora. Ao se reunirem Kriv ouviu algo estranho e foi em direção ao barulho, avistou dois dos guardas adentrando na floresta. A pedra foi a sua salvação, pegou-a e jogou para outro lado. Assim que voltou ao local, viu Darik entrando em ação e empurrando o sonífero em gás por baixo da porta.

Um baque foi ouvido e todos adentraram na casa, sem nem mesmo perder tempo, Erick avançou no cara e o matou abrindo um sorriso em sua garganta, mas tento o total cuidado de não deixar o sangue manchar o chão.

- Eu os vi levando as crianças por aqui – disse Alexander empurrando o barril e levantando um alçapão – deixarei Hades no telhado vigiando e farei a ilusão do homem morto, deixem comigo.

- A gente te dá cobertura – disse Kriv batendo nas costas do colega.

- Tive uma ideia! – Darik pegou a erva alucinógena e colocou dentro da caneca fazendo uma mistura.

- Esquente! – Kriv tomou da mão do colega e esquentou com seu aparato de fogo enquanto ria.

A tocha estava acesa, a ilusão estava pronta, a armadilha da erva também e todos desceram. Imagens de uma mulher enfeitava toda a parede, homens prostravam-se diante dela venerando-a e em alguns murais, pequenos sacrifícios aos seus pés. Kriv logo entendeu e contou aos amigos que eram as crianças. Seus conhecimentos ocultos de inquisitor vinham sempre a calhar.
Ao final da escada, uma ampla sala. Em seu centro, a estátua da mulher de face branca reinava. E lá estavam elas, uma criança em cada dedo da mão e mais três crianças que eram desconhecidas aos olhos do feiticeiro do grupo. Quatro cultistas encapuzados e com máscaras de caveira faziam o tal ritual. Dois faziam os cânticos, um passava pelas crianças uma espécie de incenso e o outro segurava uma adaga de ritual e um crânio.

- O plano é o seguinte, eu e Darik iremos jogar Samus, vai atordoar eles e aí Erick e Him matam os cultitas. Alex tente ficar a par da situação lá de cima.
Todos concordaram e fizeram seus papéis. Em poucos minutos os cultistas estavam mortos e as crianças estavam no chão, seus olhos eram amarelados e fixos.

- O que há com elas? – perguntou Himlerith cutucando uma.

- Alguma droga – disse Darik vasculhando o local enquanto se deparava com Erick saqueando os cultistas.

- O que foi? Não posso? – Erick ria.

- Eu quero uma máscara! – Darik se divertia junto.

- Ei, achei algo – disse Kriv abaixando e destampando o incenso de metal. Todos ficaram tontos ali e rapidamente se desfizeram daquilo.

- Foi a droga, talvez aquela que achamos – Darik olhava para o amigo.

- Provavelmente – o inquisitor respondia enquanto pegava uma pequena folha azul e comia – eles não sentiam o efeito e pelo que to vendo essa plantinha azul cortava.

- Você comeu ela toda?! – Darik olhava incrédulo – como vamos acordar as crianças sem a cura?!

- Gente! Tem alguém lá no primeiro andar! – Alexander disse aflito enquanto olhava para as crianças – rigidez muscular, isso pode parar o coração delas em doses muito altas.

- Doutor, tem algo que possamos fazer? – Himlerith brincava com o feiticeiro.

- Sem um medicamento não, sou médico, mas não faço milagres – o homem nem percebera a brincadeira, estava mais concentrado na parte superior – vamos subir, aconteceu algo um tanto quanto... peculiar.

- Deu certo!!! – Derik berrou e saiu correndo levando duas crianças.

O restante do grupo levou as crianças para o primeiro andar e ao saírem, a ilusão ainda estava do mesmo jeito, mas ao lado dela havia um jovem paralisado e com os olhos amarelados. Kriv apertou seu braço e viu que estava duro como pedra.

- Acho que ele morreu, está duro feito uma rocha – Kriv disse observando o jovem.

- O que vocês estão fazendo?!

A porta se abriu repentinamente assustando a todos ali, Erick estava no meio do caminho para assassinar o homem quando Kriv o segurou. O senhor segurava uma garrafa azul e olhava para as crianças correndo até a mocinha de cabelos loiros platinados.

- Eu esperava achar outras pessoas aqui – disse o senhor dando o líquido para a menina e em seguida para as crianças e o jovem.

- Quem é você?- Perguntou Himlerith.

- Ora! Sou apenas um comerciante! – ele sorria, suas feições batiam em um homem de 40 ou 50 anos. Seus cabelos loiros platinados e olhos azuis denunciavam sua etnia Thannediana – vocês tinham a cura não é?

- Não senhor – respondeu Darik.

- Vocês iam matar o garoto! – o senhor o arrastou para fora e voltou para dentro da cabana fechando a porta – bom, muito obrigado por terem salvado minha filha – ele puxou a menina de cabelos claros que parecia tonta e a cobriu com seu casaco.

- O que está acontecendo? – Perguntou Erick sem entender.

- Borges estava me causando problemas, ele sequestrou minha filha.

- Então você era o problema que ele falou... – refletiu Alexander.

- Pode desfazer a ilusão, sei que é uma, companheiro – respondeu o homem – Borges é o problema, isso sim.

- Então vamos matá-lo! – entusiasmou-se Himlerith sacando a espada enquanto Alexander desmanchava sua feitiçaria e olhava para o homem sério.

- Não se preocupem, minhas meninas cuidaram disso já! – o homem sorridente já se encaminhava para fora.

- Espere! – disse Erick – o senhor disse que é um comerciante, certo? Estamos indo em busca de algo, o senhor se interessaria em comprar as coisas que traremos de uma ruína?

- Caso for interessante, eu compro – ele saia da cabana junto dos aventureiros e logo a frente, duas mulheres lindíssimas com roupas de ciganas o esperavam, assim como um homem de armadura que logo pegou a filha dele no colo.

- Como encontramos você? – perguntou Kriv.

- Vou para a Capital, me procurem por lá – o homem entregou ao Himlerithum anel com uma cobra de asas e uma moeda em sua boca, na mesma hora Erick reconheceu a guilda da Capital. A guilda que surgiu de um dia para o outro e outras três principais de lá sumiram em uma noite.

- E como o senhor se chama? – perguntou Erick.

- Me chamem de Rei dos Mendigos, vocês me encontrarão e eu saberei de vocês assim que entrarem lá – ele sorria – posso levar as crianças se quiserem.

- Seria uma grande ajuda – respondeu Darik.

- Estou em dívida com vocês por terem salvado minha filha, espero um dia poder retribuir – seus olhos brilhavam com algo estranho e logo e acenou indo embora.

Cansados, os aventureiros acenaram para o homem e retornaram a cidade. O que eles encontraram não foi a calmaria de sempre, mas sim um rebuliço na praça principal e muita gritaria.

- O que está acontecendo? – perguntou Erick a um cidadão.

- Borges foi morto, feito em pedaços!

Dentre os sussurros Himlerith ouviu sobre o tal Keshan que aparecera na noite anterior e se aproveitou disso para esconder o que realmente acontecera.

- Foi o Keshan! O Keshan com o corvo! Dizem que ele cospe fogo pela boca!– berrou o Khazardiano.

- Foi ele mesmo! O Keshan!

Logo o grupo e todas as pessoas concordavam que havia sido o tal Keshan canibal com seu corvo. Faria sentido pelo estado em que Borges se encontrava. Kriv, vendo a situação, empurrou o taberneiro para o meio da roda e da multidão.

- Queremos o taberneiro como burgo-mestre!!! – Kriv berrava da multidão.

Logo, um coro berrava o nome do taberneiro e o mesmo logo se sentiu lisonjeado pela comoção e aceitou o destino.

- Então hoje terá cerveja de graça para todas! Uma por pessoa! – berrou o taberneiro.

Com a festa e a comoção da cidade, todos se encaminharam para a taberna, exceto os cinco. Todos foram visitar a casa de Borges e o que encontraram não foi nada muito agradável. Seu corpo havia sido esquartejado e a casa estava toda suja de sangue. Erick aproveitando a situação, pegou os quadros da casa e Alexander levou a capa negra com adornos de caveira que haviam encontrado em um compartimento secreto dentro da casa, aquilo era a prova de que ele era o mestre o ritual. O Khazardiano de olhos liláses guardou para si uma página do ritual que estava escrito em Khazardiano Antigo. Sabia que coisa boa não era, mas quanto menos pessoas souberem daquele ritual profano de drenagem de vida, melhor.  Erick ainda vasculhava o local e levou consigo também a adaga de ritual de Borges, Kriv brincava com ele dizendo que iria ter uma coleção de adagas em breve.

A tarde eles descansaram para sua próxima viagem e ao entardecer, os cinco encontraram novamente John e Greg. Alexander puxou de seu porta pergaminho aquela maldita carta que recebera e que tanto o atormentava, havia se passado 50 anos que havia sido enviada, mas aquilo realmente o deixava inquieto e voltara a ler a mesma.

"Ruína caiu sobre a nossa família...

Você se lembra do nossa casa, imperial e nobre,
olhando orgulhosamente de seu poleiro estóico acima dos vales?
Eu vivi todos os meus anos naquela mansão antiga, que era carregada de sentimentos sombrios, porém farta de riquezas e luxúria. Eu, no entanto, comecei a me cansar da extravagância convencional. Foi quando rumores singulares e inquietantes sugeriam que a própria mansão era a morada para algum poder fabuloso e inominável.

Com relíquia e ritual em mãos, direcionei todos os esforços em direção à escavação e recuperação desses antigos segredos, esgotando o que restava da fortuna de nossa família em operários assustados e ferramentas de qualidade. Por fim, nos rochedos encharcados pelas águas do lago das estrelas, sob as mais baixas fundações, descobrimos aquele maldito lugar e o mal antediluviano que lá descansava. A cada passo que demos naquela antiga e inesgotável masmorra, mas nós estávamos em um reino da morte e da loucura!
No final, eu fugi sozinho em meio a lamentações e gritos de dor dos operários, através das estruturas antigas e imagens profanas. Até que tudo escureceu e minha consciência falhou.

Você se lembra da nossa casa venerável, bela e imperial ?
Ela é a tumba de uma abominação profana!
Eu lhe imploro, regresse a nossa casa, reivindique o seu por direito e destrua aquilo que habita nas sombras vorazes da mais escura das masmorras...

Conde Galdor Heilrart
12º dia do mês das folhas, do 5º ano da era de ouro."


A caminhada não era muito longa, Erick conversava distraidamente com Darik e Kriv olhava aos arredores e principalmente para os dois homens desconhecidos, Himlerith polia sua espada enquanto andava, mas no céu as estrelas começavam a aparecer e logo brilhariam em vermelho.

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